Pioneira no futebol feminino e em atividade ininterrupta desde 2001, a Ferroviária fechou a contratação de Ivanete Xerente, de 16 anos, primeira jogadora indígena a assinar contrato profissional em um clube de futebol feminino. A atleta passará por exames e iniciará os treinamentos junto ao time sub-17, que disputa o Campeonato Paulista da categoria.
Ivanete Xerente, ou apenas Xerente como gostaria de ser chamada, é natural do Tocantins, da etnia Xerente. Ela e seu pai, Paulo Cesar Xerente, chegaram à Araraquara no sábado (1.600km separam a comunidade que vivem de Araraquara), conheceram a cidade, foram recepcionados pelo prefeito Edinho Silva e no domingo (14) estiveram na Fonte Luminosa assistindo à partida das Guerreiras Grenás contra o Real Brasília-DF, pela 11ª rodada do Campeonato Brasileiro. Na segunda-feira (15), voltaram ao estádio, conheceram todas as instalações, além da sede administrativa e tiveram a concretização do sonho: a assinatura do contrato profissional com a Ferroviária.
Incentivador desde o início do sonho de Xerente, o pai Paulo, emocionado, falou sobre o momento vivido por sua filha. “Está sendo uma coisa muito nova para nós, para vocês também, de estar recebendo essa menina com os costumes diferente, com a cultura diferente, com a comunicação e fala diferente. Mas ela tem essa bagagem pronta, de lá de onde ela veio. Foi surpreendente para todos nós essa adaptação dela com o ‘não indígena’ né, nessa convivência. Então a gente fica mais seguro ainda por isso, por ela ter essa capacidade dessa comunicação e convivência com o ‘não indígena’”, pontuou.

Realizando um sonho de criança, como dito por seu pai, Xerente também comentou sua chegada à Ferroviária e o que representa estar vestindo a camisa das Guerreiras Grenás. “Comecei a jogar na aldeia, no terreno, na lama, na mata mesmo. Não tinha oportunidade de eu sair, e comecei a treinar. Treinar até junto com meu pai, ele me ajudou demais também, as vezes não tinha meninas para jogar comigo lá, e chamava ele para jogar comigo e treinar. Surgiu uma oportunidade e fui para Araguaína-TO, morei lá um ano e três meses e competi. E lá enfrentei muitos obstáculos para chegar onde cheguei hoje. Então, hoje eu me sinto uma privilegiada. Para nós indígenas, principalmente mulheres, é bem difícil pra sair pra sociedade, convivência diferente, alimentação diferente”, disse.
A captadora das Guerreiras, Karina Konzen, exaltou a qualidade técnica da nova atleta grená. “Eu fui olhar o Campeonato Brasileiro escolar, que aconteceu do dia 23 ao dia 30 de abril, no Tocantins. Então eu olhei todos os jogos que ela jogou na competição. E ela veio numa crescente na competição, é uma menina que tem uma qualidade muito boa, ela é meia. Alguns clubes já tinham interesse nela, mas acho que (ela escolher a Ferroviária) foi muito pelo trabalho que a gente faz: de conversar com o pai, com as pessoas próximas, tentar fazer essa ligação para que a gente consiga ter essas meninas aqui que vão fazer diferença no nosso projeto. É uma menina que se destaca muito, e não é pela cor, pela raça. Isso não faz diferença pra gente. O que faz diferença é a gente ter as melhores para o nosso projeto de base, que é uma das melhores base do Brasil”
Rafaela Esteves, coordenadora das categorias de formação das Guerreiras, falou sobre a adaptação da jogadora ser facilitada pela integração entre os departamentos da Ferroviária. “Eu acho que acaba sendo um diferencial nosso ter uma equipe multidisciplinar, os departamentos integrados. Facilita muito essa recepção com a atleta, deixar o pai também bem à vontade para ir embora tranquilo, e saber que ela está em boas mãos. Além da nossa parte de gestão, tem a psicologia, a assistente social, nossa nutricionista, fisioterapeuta… Estando todo mundo junto e integrado vai facilitar o processo de adaptação dela. A gente entende que ela tem seus costumes e sua cultura, é natural como qualquer outra atleta que vem de outro estado. Mas acredito que tendo todo mundo junto e com o mesmo objetivo vai facilitar muito essa questão de adaptação dela dentro do alojamento, treinamentos e outras questões”
– Fotos da chegada e assinatura do contrato AQUI.
– Matéria da TV Ferroviária:
Texto: Jonatan Dutra/Ferroviária SAF
Foto: Tiago Pavini/Ferroviária SAF
